De homem para homem

Durante o lançamento do iOS 8, o sistema operacional da Apple, o vice-presidente de engenharia de software, Craig Federighi, apresentou um aplicativo aparentemente onipresente chamado Saúde. Segundo ele, o tal software permitiria monitorar “todas as métricas” em que os usuários tivessem interesse – a não ser que eles fossem mulheres e quisessem fazer algo tão simples quanto tomar nota do próprio ciclo menstrual.

O Saúde reúne informações retiradas de vários outros dispositivos, como o FitBit e o Nike+. Ao acessá-lo, o usuário tem acesso a 65 indicadores, que vão desde os batimentos cardíacos até a ingestão diária de iodo. E a ausência da menstruação entre eles é ainda mais inusitada porque já existem dezenas de aplicativos criados justamente para isso – embora a maioria pareça feita para meninas de 7 ou 8 anos. “Hoje existem mais homens desenvolvedores. Então o produto final acaba ficando com a visão que eles têm do universo feminino”, diz Samantha Carvalho, dona da Queen Mob, agência focada em conteúdo para celular.
Dos dez primeiros aplicativos indicados pela App Store quando o usuário faz uma busca por “period” (“menstruação”), sete exibem flores em tons de rosa como ícones, e quase todos se parecem com os diários perfumados e fechados com cadeado que faziam sucesso entre as pré-adolescentes nos anos 1990. A grande exceção é o Clue, criado pela empreendedora alemã Ida Tin. “Era óbvio que não seria rosa”, diz Lisa Kennelly, responsável pela comunicação do aplicativo. “E muitas usuárias já disseram que gostam da aparência do Clue justamente porque não paternaliza as mulheres.”
Aplicativos como o Clue e o Saúde são expressões de um movimento cada vez mais popular conhecido como quantified self (“eu quantificado”, em tradução livre), composto por pessoas que gostam de monitorar algum aspecto – ou aspectos – de sua vida. Uma pesquisa feita ainda em 2013 pelo Centro Pew Research mostrou que 70% dos norte-americanos já monitoravam pelo menos um indicador de saúde, e 21% deles faziam isso por meio de aplicativos.
ELES SÓ PENSAM NAQUILO
A socióloga Deborah Lupton, da Universidade de Canberra, na Austrália, fez em junho do ano passado uma análise dos principais aplicativos dedicados a monitorar a atividade sexual dos usuários – em teoria um assunto que interessa igualmente a todos os gêneros. Mas... “Quando analisei os aplicativos disponíveis no mercado, logo ficou óbvio que eles são direcionados principalmente aos homens e relacionados apenas ao desempenho sexual masculino”, diz Lupton. Um deles, ela conta, julgava o “talento” do sujeito com base no volume dos gemidos da parceira; outro pedia que o telefone fosse deixado perto do travesseiro e avaliava o desempenho de acordo com a movimentação na cama.
Já os aplicativos especializados em reprodução tinham o problema oposto: focavam apenas na fertilidade feminina. “E isso acontecia apesar de evidentemente o homem ser tão responsável quanto a mulher pela gravidez, assim como pela contracepção”, diz Lupton. Segundo ela, essas funcionalidades reproduzem aquilo que a sociedade espera do comportamento de homens e mulheres: “Poderiam pensar em novos aplicativos que levassem em conta que as mulheres também podem estar interessadas em avaliar o próprio desempenho sexual, e não preocupadas apenas em monitorar o ciclo menstrual ou ter filhos.”
A dificuldade para tirar ideias como essa do papel talvez esteja justamente no gargalo do financiamento. Quando decidiu criar o Clue, Ida Tin procurou diversos investidores, e alguns deram desculpas pouco convencionais para rejeitar a ideia. “Uma coisa que ouvimos de mais de uma pessoa foi: ‘Não invisto em produtos que eu mesmo não possa testar’. Então, para certos homens, investir em serviços para monitorar a saúde de mulheres nunca foi uma possibilidade”, diz Lisa Kennely. “Os melhores aplicativos são aqueles em que o criador está solucionando um problema relevante para sua própria vida; assim, quanto mais mulheres estiverem trabalhando com tecnologia, maior é a tendência de existirem mais produtos bons feitos para elas.”


APPS
Edição especial só com bons aplicativos para mulheres (eles existem!)
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 (Foto: Divulgação)

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 (Foto: Divulgação)
NOT BUYING IT > O aplicativo foi criado para catalogar peças de publicidade sexistas e pressionar as respectivas marcas. É possível inclusive fazer buscas para saber se aquela empresa específica já pisou na bola.
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 (Foto: Divulgação)
HOLLABACK! > Funciona como um mapa do assédio, em que usuárias de vários países indicam locais onde foram hostilizadas. O equivalente no Brasil é o chegadefiufiu.com.br, que  tem versão especial para o navegador do celular.
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Galileu

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