Espécie de morcego da Amazônia se alimenta de animais domésticos

Morcegos hematófagos, moradores das proximidades de comunidades ribeirinhas dos rios Juruá e Madeira, se alimentam principalmente do sangue de animais domésticos. 

A descoberta surpreendeu pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “As análises constataram que, na verdade, estes morcegos se alimentam de porcos, galinhas, cachorros, mas esperávamos encontrar vestígios de alimentação de animais selvagens. Isso quer dizer que eventualmente eles vão para a floresta, mas buscam alimentos na comunidade”, explica o pesquisador Paulo Brobowiec.
Segundo Brobowiec, isso quer dizer que os morcegos já estão adaptados a se alimentar de presas fáceis, que ficam confinadas. A conclusão está na pesquisa dos hábitos alimentares do morcego da espécie Desmodus rotundus. Na Amazônia, este mamífero é mais conhecido como morcego-vampiro-comum.
Características morfológicas da espécie favorecem este comportamento. “Essa espécie de morcego do artigo consegue se deslocar pelo chão, estas características conferem a ela rapidez. Para se ter uma ideia, eles conseguem levantar voo do chão e entrar em poleiros de galinha”, acrescenta Brobowiec.
A pesquisa
Na Amazônia, existem mais de 160 espécies de morcegos. A espécie em questão, possui distribuição desde o Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina. Os hematófagos, que se alimentam de sangue, são três espécies. Destas, apenas uma consegue se alimentar de mamíferos, as demais possuem restrições quanto a digestão do sangue deste tipo de animal que podem levá-las a morte.
A investigação foi realizada por meio da detecção do DNA das 'vítimas' - animais sugados pelo vampiro – nas fezes do animal. O método foi desenvolvido no Laboratório de Genética de Plantas do Inpa (LabGen). O estudo de campo foi realizado em comunidades ribeirinhas do rio Purus e médio rio Madeira, no Amazonas.
O pesquisador do Inpa, Rogério Gribel, um dos autores do trabalho, conta que inicialmente o estudo envolveu uma fase experimental, ainda em Manaus, na qual alguns morcegos vampiros foram mantidos em cativeiro, alimentando-se por vários dias exclusivamente do sangue de uma de suas “vítimas” potenciais (galinha, porco, cachorro, boi ou humanos), visando a coleta das fezes dos morcegos. “Em seguida, foi desenvolvido em laboratório, um protocolo utilizando ferramentas moleculares para detectar o DNA das “vitimas” nas amostras das fezes destes vampiros com dieta controlada”, explica a também pesquisadora do instituto, Maristerra Lemes.
Após o desenvolvimento do protocolo de identificação do DNA nas fezes, partiu-se para o trabalho de campo, na região do rio Purus e médio Madeira, a fim de se investigar a preferência por espécies na alimentação dos morcegos, relata o pesquisador colaborador do instituto, Paulo Bobrowiec, doutor em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva pelo Inpa. “O estudo demandou 47 noites de trabalho de campo em 18 comunidades ribeirinhas, onde foram capturados cerca de 160 vampiros com o intuito de descobrir quais eram seus hábitos alimentares na natureza. Os resultados indicaram o maior consumo de sangue de animais domésticos como galinhas e porcos e ausência de DNA humano e de animais silvestres (papagaio, arara, macaco, dentre outros) nas fezes dos vampiros caputrados”, disse.
Bobrowiec acrescenta que, a ausência de vestígios de DNA de animais selvagens nas amostras fecais dos morcegos foi um tanto intrigante, considerando que as comunidades ribeirinhas visitadas são cercadas por florestas com baixos níveis de perturbação humana. “Os animais domésticos e de criação chegaram à Amazônia só nos últimos séculos, isso sugere uma rápida adaptação comportamental para o ambiente antrópico, o que permitiu os morcegos vampiros explorá-los com sucesso”, explicou.
Ainda de acordo com Bobrowiec, o desenvolvimento do protocolo molecular simples e de baixo custo pode contribuir para compreender os hábitos alimentares dos vampiros, especialmente em áreas com altos índices de agressão por mocergos em humanos e animais domésticos.
Journal of Mammalogy e Science
Os resultados da pesquisa foram publicados recentemente na revista Journal of Mammalogy e divulgados como destaque na “latest news” da Science, uma das mais prestigiadas revistas sobre investigação científica. O trabalho foi o tema central da tese de doutorado de Paulo Bobrowiec, dentro do Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do INPA. A pesquisa foi orientada pelos pesquisadores do INPA Rogério Gribel e Maristerra Lemes, os quais estão atualmente cedidos para o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 
Para os pesquisadores, foi uma satisfação ter o reconhecimento do trabalho divulgado numa das mais conceituadas revistas científicas. “Ter um artigo científico publicado costuma ser uma alegria para os pesquisadores, principalmente quando o artigo é escolhido entre milhares publicados no período para ser destaque como “latest news” (Últimas Notícias) da revista Science”, comenta Maristerra.


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