Após polêmica em campanha contra Aids, empresa se desculpa

Após a polêmica gerada por uma campanha de prevenção a Aids em Santa Cruz do Sul, município a cerca de 150 quilômetros de Porto Alegre, a empresa que confirmou a autoria do cartaz emitiu uma nota oficial nesta sexta-feira (8) em que pede desculpas “por qualquer constrangimento ou inconveniente que possa ter sigo gerado”.

O cartaz trazia como mensagem principal a frase "Não faça sexo com pessoas de Santa Cruz do Sul”, escrita em letras garrafais em um fundo vermelho. Mais abaixo, informava que havia 950 pessoas contaminadas pelo vírus HIV no município e chamava a atenção para o uso do preservativo. "Se por acaso você não conhece todas estas pessoas, retire aqui a única forma segura de se prevenir", complementava o texto, escrito acima de uma bolsa com camisinhas.
A campanha é datada de 1° de dezembro de 2014, Dia Mundial de Combate à Aids, mas a imagem foi revivida nas redes sociais na quinta-feira (7), repercutindo de forma negativa. O material foi elaborado pela Comissão Interna de Prevenção a Acidentes (Cipa) da indústria de derivados de borracha Mercur, empresa santa-cruzense de grande porte, e fixado nas paredes da fábrica. O assunto viralizou depois que internautas voltaram a comentar e compartilhar o cartaz em postagens no Facebook.
A empresa alegou que o objetivo era chamar a atenção de forma impactante para alertar a população para o uso do preservativo. E assumiu o erro sobre a interpretação e menção dos dados citados.Na campanha, abaixo da frase, um texto justifica o pedido citando dados atribuídos ao Centro Municipal de Atendimento à Sorologia (Cemas), que faz parte da Secretaria Municipal de Saúde.
“Assumimos, apenas, um equívoco, pela interpretação inadequada do número de casos fornecido pelo Cemas. Havíamos compreendido que eles representavam os dados da população de Santa Cruz do Sul e não seriam números totais de atendimentos de sua área de abrangência”, diz a nota.
Procurada pelo G1, a Secretaria Municipal de Saúde de Santa Cruz do Sul ressalta que considera a campanha discriminatória e que quer reforçar que a autoria não tem vínculo com ações municipais de prevenção e combate à Aids.
“Essa retratação da empresa foi só em relação aos números. Gostaríamos que a empresa se retratasse em relação ao fato como um todo, que no nosso entender foi discriminatório. Foi discriminatório tanto em relação à população de Santa Cruz, quanto aos portadores de HIV", afirmou o secretário Henrique Hermany, que descartou, por enquanto, procurar novamente a Polícia Civil e Ministério Público. Ele já havia feito uma denúncia quando a autoria do cartaz era desconhecida, mas o caso não avançou até a empresa assumir a autoria do material.
Segundo ele, a prefeitura de Santa Cruz do Sul tem uma campanha em vigor que diz exatamente o contrário ao veículado na campanha da empresa: “Aids, evite o vírus, mas não as pessoas”. "Nosso objetivo não é um confronto. A gente quer esclarecer que a campanha não parte do município”, reforçou. “Em rede social é complicado conseguir mensurar o alcance de um assunto. Acabou saindo do controle”, opinou o secretário.
Segundoa  Secretaria de Saúde de Santa Cruz do Sul, os dados sobre os casos de HIV em toda a região do Vale do Rio Pardo são centralizados no Cemas. Atualmente, na região há cerca de 1,1 mil portadores do HIV. O número, porém, não se refere apenas à cidade porque moradores de outros municípios buscam atendimento e apoio no órgão santa-cruzense.
Confira na íntegra a nota emitida pela empresa:
“A Mercur é uma empresa com 90 anos que, ao longo de sua trajetória, sempre se preocupou com as pessoas.
Assim que tomou conhecimento sobre a divulgação de sua campanha interna sobre HIV, realizada pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, entendeu a importância de esclarecer a situação, relatando o propósito original desta provocação que foi feita aos seus colaboradores.
No dia 01 de Dezembro de 2014, foram expostos cartazes nas dependências da empresa, contendo a frase “Não faça sexo com pessoas de Santa Cruz do Sul”. Em complemento à frase, orientações sobre o número de casos de pessoas atendidas pelo CEMAS, fornecidas pelo próprio órgão e a possibilidade de retirada de preservativos como forma de prevenção.
Na Mercur, temos nos esforçado para promover a construção de espaços educacionais, que possam ultrapassar as alternativas do senso comum, para despertar a atenção das pessoas para assuntos que realmente são importantes. O alerta para o aumento de casos é algo que, em conversas com pessoas diretamente ligadas ao contexto, em nosso município, preocupa muito.
O que procuramos fazer foi construir uma forma impactante de alertar para a situação, ligando o número de casos ao fato de que são, em sua maioria, anônimos e, por isso, não existe uma garantia de prevenção sem a utilização do contraceptivo: "Se por acaso você não conhece todas estas pessoas, retire aqui a única forma segura de se prevenir" (fazendo referência ao preservativo).
Manter o assunto vivo e circulante entre os colaboradores, a partir da exposição inicial com o material de apoio, foi uma das ações previstas para gerar conhecimento e mobilização em torno do assunto.
Assumimos, apenas, um equívoco, pela interpretação inadequada do número de casos fornecido pelo CEMAS. Havíamos compreendido que eles representavam os dados da população de Santa Cruz do Sul e não seriam números totais de atendimentos de sua área de abrangência. Em função disto, gostaríamos de nos desculpar por qualquer constrangimento ou inconveniente que possa ter sido gerado".
G1 RS

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