Exercícios mentais ganham popularidade na luta contra o estresse

Fabrício Serejo está ocupado. Enquanto concede uma entrevista ao GLOBO por Facebook, está, também na rede social, combinando um trabalho como freelancer e conversando com a namorada.
A tarde hiperativa do feriado de ontem não foi muito diferente de um dia de trabalho. O analista de mídias sociais administra a conta de cerca de dez empresas em sites de relacionamento com o cliente. Recebe, o dia inteiro, mensagens pelo celular e por e-mail de cada um deles. Para distrair, ouve música entre um contato e outro.

Como a maioria da população, Fabrício não conhece o mindfulness (“consciência plena”, em tradução livre), um exercício mental emergente na ciência que prega a atenção no presente, em uma coisa de cada vez.

Oriundo da filosofia budista, o mindfulness perdeu a conotação espiritual entre os profissionais de saúde de diversas áreas, da neurociência à psicologia. Nos EUA, mais de mil pesquisas são publicadas todos os anos sobre suas técnicas e benefícios. No Brasil, os estudos ainda são incipientes e só têm se acentuado nos últimos cinco anos. Já é consenso que a “atenção plena” leva ao desenvolvimento da atenção, ao melhor desempenho profissional, e combate a depressão, o estresse e a perda de memória, além de aumentar a qualidade do sono.

Os exercícios mentais também reduzem sintomas depressivos e ansiosos e aumentam a qualidade de vida de pacientes com doenças graves, como dor crônica, câncer e problemas cardíacos.

EXPERIÊNCIA NA SAÚDE PÚBLICA

Em São Paulo e Porto Alegre, as técnicas de mindfulness ganharam a atenção do sistema público de saúde (SUS), onde os pacientes são acompanhados por pesquisadores da Unifesp e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

— É uma técnica complementar de relaxamento e concentração, que não substitui qualquer tratamento, e tem sido muito bem aceita pelos pacientes — relata Daniela Sopezki, psicóloga e doutoranda em Saúde Coletiva da Unifesp. — Trata-se de algo muito mais amplo do que uma simples meditação, porque as pessoas continuam contemplando o que ocorre ao seu redor, com abertura e curiosidade.

Segundo Daniela, diversas pesquisas internacionais demonstram que passamos metade do tempo divagando sobre o passado ou planejando o futuro, sem dedicar um foco à tarefa que desempenhamos no presente.

— Precisamos nos engajar para romper com um piloto automático, a distração frequente que nos leva a outro lugar e não nos deixa pensar no que estamos fazendo — explica. — Até porque, mesmo quando estamos aqui, no presente, somos cada vez mais desconectados por mil e uma tarefas. Ninguém reconhece mais as próprias emoções.
Mestre em Psiquiatria da UFRGS e diretor da Escola Brasileira de Terapias Cognitivas, Paulo Knapp destaca que é impraticável distanciar-se de qualquer pensamento. A solução, então, é saber como organizá-los no cérebro, encarando cada um a partir de uma cartilha de mandamentos. Entre eles, evitar decisões impulsivas ou que a emoção fale mais alto do que a razão.

— É impossível ter a cabeça vazia — admite. — Por mais que tentemos, nunca vamos conseguir isso. O mindfulness é a forma como lidamos com uma cabeça cheia de problemas. Podemos exercitar nossa atenção, julgar com distanciamento cada atitude, sem precisarmos nos isolar de outras pessoas.

FALTA DE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL
De acordo com Knapp, a técnica ganha novos adeptos devido à falta generalizada de “inteligência emocional”. Falta uma percepção de que os sentimentos negativos nunca estarão totalmente fora de nossas vidas.

— Saúde não é só [cuidar de] doenças, também precisamos investir no bem-estar — enfatiza. — As pessoas normalmente pensam que uma vida boa não tem ansiedade ou angústia, mas isso é inerente ao ser humano. É a busca de um propósito que nos movimenta. E são técnicas como o mindfulness que nos ensinam a ter concentração para lidar com as emoções. Largamos assim a estratégia do avestruz, de pintar a realidade com cores vibrantes, quando na verdade ela não pode ser assim. Estamos enfrentando pouco as situações, preferendo exercer cada vez mais o escapismo.


Um dos efeitos mais buscados pelos pacientes é a tomada de consciência. Em outras palavras: como conseguir lidar com as escolhas. Daniela cita as mídias sociais como um exemplo: uma pessoa está frequentemente on-line porque este é um comportamento automático — embora não saiba por quê — ou vê ali uma utilidade?

— Agora as pessoas estão sentindo mais o impacto do comportamento multitarefa. A mente fica sempre voltada para o futuro, para o quero mais — avalia.

A psicóloga Vânia Bazan considera que a distração das pessoas e a incapacidade de focar em apenas uma tarefa está ligada ao excesso de informação disponível.

— O mindfuness faz parte da nova onda de terapias comportamentais — destaca. — É o encontro do pensamento e das emoções, uma forma de interpretá-las de acordo com o nosso estado mental.

Vânia avalia que a adoção incondicional das mídias sociais e a cultura do imediatismo — o famoso “tudo ao mesmo tempo agora” — dificultam o encontro de um foco, um momento em que a pessoa consiga avaliar o desempenho de suas atividades.

Segundo ela, estas deficiências são visíveis principalmente entre os mais jovens, que já nasceram em um ambiente multimídia.
Ironicamente, a própria web fornece receitas para aplicar a “atenção plena”. Alguns aplicativos ensinam movimentos de respiração e os usuários podem programar que tempo têm para se dedicar a eles e se livrar de outras doenças — segundo Daniela, “observar sem se engajar”.

A popularidade crescente do mindfulness parecia inimaginável no final da década de 1970, quando o método foi inventado pelo médico americano Jon Kabat-Zinn. Professor da Escola de Medicina da Universidade de Massachusetts, ele adaptou experimentos com budismo e ioga para sessões de tratamento e alívio da dor de pacientes com doenças crônicas. Os cientistas aprovaram gradualmente suas práticas e desenvolveram as técnicas que, até então, nunca haviam deixado a seara religiosa.

— A meditação não é parar os pensamentos, mas se dar conta deles — define Lama Sherab, professora e administradora da instituição de budismo tibetano Chagdud Gonpa no Brasil. — Todos procuram felicidade. Por isso, há uma série de medicamentos que visam ao bem estar. Mas nenhum indica uma paz permanente. Isso só pode ocorrer através de uma orientação, alguma técnica que deixe a pessoa menos ansiosa.
Fabrício, o analista de mídias sociais, confessa que “de vez em quando, seria bom” poder se dedicar exclusivamente a uma atividade.

— Às vezes eu me pergunto: “o que é que eu estou fazendo mesmo?” — diz. — Abro uma janela na internet para começar algum trabalho e em seguida esqueço totalmente o que era.

EXERCÍCIOS NO COTIDIANO

Lama Sherab recomenda um exercício que pode ser praticado para atingir o estado de mindfulness, quebrando um fluxo constante de pensamentos.

— Procure fixar o olhar em um objeto por um minuto. No escritório, tente fazer isso com um lápis que está sobre a mesa. Na fila do banco, só costumo olhar para o chão.

A budista assegura que não estamos “em um caminho sem volta”: ainda é possível introduzir, no cotidiano, diversas estratégias que nos levem a unir toda a consciência no presente.
A opção de Fabrício em acompanhar suas multitarefas com músicas pode ser uma boa opção, diz Daniela:

— O importante é garantir um equilíbrio. Você pode cumprir uma atividade se conseguir uma música que o ajude a se concentrar. Depende do seu gosto pela música e de seu humor.

Vale reservar alguns segundos olhando algum objeto, pensar exclusivamente na tarefa que está exercendo, analisar informações com equilíbrio e racionalidade e evitar remoer o passado.

Os especialistas ouvidos pelo GLOBO julgam que a atenção plena do mindfulness independe da saúde mental de uma pessoa. E as técnicas devem ser treinadas em qualquer momento. Por exemplo, na hora de reler uma reportagem.




O Globo

Postagens mais visitadas