'Se a gente pensar muito, não come', diz 'xerife' do Procon-RJ

“Alguns lugares assustam, mas se a gente começa a pensar muito não come mais”. A frase é do "xerife" do Procon-RJ, um experiente policial federal, que foi segurança pessoal da então deputada Cidinha Campos, quando ela foi alvo de ameaças por sua atuação na CPI das Milícias. A autarquia tem chamado a atenção da opinião pública e recebendo críticas de empresários por recentes fiscalizações em restaurantes.

Depois que o Procon-RJ passou a ser ligado à Secretaria de Proteção e Defesa do Consumidor, em março de 2013, o ex-agente Fábio Domingos foi chamado por Cidinha para ser o xerife do Procon-RJ. Em entrevista ao G1Fábio revelou bastidores da fiscalizações do Procon em restaurantes e lembrou até do caso de uma fiscal que passou a evitar comer e perdeu peso depois de ver muita comida estragada nas operações.
Segundo Cidinha, que foi designada para assumir a secretaria, um dos motivos para que Fábio virasse seu diretor de Fiscalização é exatamente sua experiência como investigador.


“Eu trouxe para a equipe de fiscalização a experiência investigativa adquirida na PF, de fiscalização, de policiamento em equipe. Surgiu esse convite, aceitei de pronto, sempre aceito um desafio a ser desenvolvido, dessa vez, como polícia administrativa do estado”, disse ele.

Meias, gatos e escargots

A rotina das operações diárias começa às 9h, com uma reunião de pauta. De forma geral, na sexta-feira já se decide as operações da semana seguinte, mas diariamente a equipe de 18 pessoas - 11 fiscais na rua e quatro no escritório - se reúne para confirmar a agenda e checar os últimos detalhes. E sempre o planejamento pode mudar por conta de uma denúncia no noticiário, ou de alguma informação de irregularidade recebida pelo atendimento do Procon. O nome da operação é criado em grupo na hora, numbrainstorm.


“Alimentação é uma situação nevrálgica, é preciso mudar o quadro de fornecimento de alimentação no Rio. Já está começando: os supermercados estão começando a melhorar, muitas lojas não tinham o preço do produto. E já não se vende mais carne moída embalada, é proibido, tem que ser moída na frente do consumidor”, diz Fábio.



Mas por mais preparado que seja, o policial afirma que muitas situações vividas pela equipe nas fiscalizações abalam e chocam.

Uma das situações mais desagradáveis que já viu, segundo conta, nem tinha ligação direta a alimentos estragados.

“Estávamos fiscalizando um restaurante e ao entrar na cozinha vi logo numa prateleira uma embalagem grande de alimentos, na forma de um balde, e na sua alça uma meia pendurada, Acho que alguém lavou a meia e botou lá para secar. Até o dono do restaurante, quando chegou, teve um impacto”, disse.
Já falei para a esposa: ‘Bandejinha, foge’. A carne tem que ser fechada a vácuo, com a data de validade no carimbo"
Fábio Domingos
A rotina diária de fotografar a falta de higiene em restaurantes, os alimentos vencidos, muitos praticamente podres, provocou um ataque de nervos numa fiscal da equipe. Segundo Fábio, a jovem ficou tão abalada que começou a emagrecer, a vomitar, e a praticamente não comer mais. A própria secretária Cidinha Campos lembra do caso.
“Era uma fiscal jovem, viu coisas tão nojentas que começou a perder peso. Ela fotografou 28 toneladas de carne estragada sendo retiradas de um supermercado em Maricá. Um caminhão compactador de lixo teve que fazer quatro viagens ao aterro sanitário de Itaboraí para descartar a carne podre”, conta.
Numa veterinária em Campo Grande, na Zona Oeste, Fábio encontrou num freezer cachorros mortos congelados. Ninguém soube explicar como haviam morrido, o que faziam ali, e por que não haviam sido enterrados.
Num restaurante refinado do Leblon, na Zona Sul, Fábio e sua equipe encontraram cinco quilos de escargots com prazo de validade vencido há mais de um ano.
Engraçados, mas igualmente perturbadores, foram os gatos encontrados dormindo em cima de alimentos. Os fiscais encontraram um gato preguiçoso muito bem acomodado num saco de grãos, numa loja de uma rede que vende alimentos a granel. Mas havia uma explicação lógica. Segundo o funcionário explicou para Fábio "com a maior naturalidade", o gato estava lá para caçar os ratos.


“Outra imagem marcante foi de um gato deitado em cima 15 quilos de frango que estavam sendo desfiados numa pastelaria. Isso perturba”, diz Fábio.

Ele não nega que, depois de enfrentando situações nauseantes, ficou mais sensível à qualidade da comida e passou a orientar a mulher.


“Carne é uma coisa que tem que tomar cuidado, quando vai comprar tem que verificar se está fresca, se é congelada, ver data de validade. Cuidado com carne em bandeja, a data de validade pode ser alterada. Já falei para a esposa: ‘Bandejinha, foge’. A carne tem que ser fechada a vácuo, com a data de validade no carimbo. Carne moída embalada nem pensar. Não se tem segurança, é provável que o que está moído é ruim”, orienta.

G1 RJ

Postagens mais visitadas