Secretário envolvido em fraude do queijo é afastado de cargo, diz prefeito

Em entrevista coletiva na manhã desta quarta-feira (17), o prefeito de Três de Maio, Olívio José Casali, se manifestou sobre o envolvimento do secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município, Valdir Ortiz, na adulteração do queijo fabricado por uma empresa de laticínios na cidade do Noroeste do Rio Grande do Sul. A participação dele foi apontada em investigação do Ministério Público.

"Tomamos conhecimento oficial da promotoria pública e imediatamente afastamos o nosso funcionário público. Também abrimos uma sindicância disciplinar para apurar os fatos", garantiu o prefeito.
O queijo fabricado de forma irregular recebia adição de amido de milho e leite rejeitado pelas indústrias por estar vencido ou fora de qualidade. O amido de milho, segundo o MP, engrossa e dá consistência. No entanto, ao final do processo, deixa o produto esfarelado e com forte odor, até mofar.
MP deflagrou Operação Queijo Compensado (Foto: Marjulie Martini/Ministério Público)MP deflagrou Operação Queijo Compensado na terça (16) (Foto: Marjulie Martini/Ministério Público)
Conforme o MP, Valdir Ortiz teria facilitado as atividades da empresa. Apesar de investigado, ele não está entre os presos na Operação Queijo Compensado I, deflagrada na terça-feira (16). Três pessoas foram detidas e encaminhadas ao presídio preventivamente, todas ligadas à Laticínios Progresso, responsável pela fraude: o proprietário Volnei Fritsch, o filho dele Pedro Fritsch e o sócio Eduardo André Ribeiro.
Além do secretário, também foi apontada a participação do fiscal Roberto Nardi, que auxiliaria no processo para obtenção do selo da Coordenadoria de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Cispoa), o que possibilita a venda do produto dentro do Rio Grande do Sul.
Os dois são investigados no âmbito fiscal. Segundo o MP, os proprietários da empresa estariam fraudando notas fiscais. A suspeita é que ocorra sonegação de impostos, já que a Laticínios Progresso, segundo as investigações, tem lucro mensal de R$ 1 milhão, mas declara ao fisco apenas R$ 50 mil.
O MP pediu o afastamento dos dois do cargo público que ocupavam. Eles terão que comparecer à Justiça a cada dois meses para informar e justificar atividades e estão proibidos de acessar ou frequentar  sede e o depósito da empresa. O mandado de medida alternativa à prisão consiste ainda na proibição de os investigados ausentarem-se da Comarca por mais de oito dias e na suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais.
Outra irregularidade apontada é que o produto somente tinha autorização para ser distribuído dentro de Três de Maio. O queijo passava apenas por inspeção municipal e por isso só podia ser comercializado na cidade. 
Clandestinamente, nas madrugadas de sábado, cargas eram levadas para Ivoti, no Vale do Sinos, com acompanhamento de batedores que avisavam sobre fiscalizações na estrada. Lá o produto recebia rótulos e era vendido, principalmente, na Região Metropolitana de Porto Alegre.Sedes da empresa interditadas e produtos recolhidos do mercado

A operação interditou as sedes da empresa em Três de Maio e Ivoti, cidade do Vale do Sinos. Também foi determinado o recolhimento dos produtos nos mercados, trabalho que começou nesta quarta-feira nas 23 cidades em que o queijo da Laticínios Progresso era vendido.

O queijo já apreendido na indústria, durante a operação, vai ser analisado e, depois, inutilizado. A fraude foi descoberta durante as investigações da Operação Leite Compensado, que desde 2013 investiga adulteração do produto no estado.
Escutas comprovam baixa qualidade do queijo
Escutas telefônicas ajudaram o MP a desvendar a fraude. Em um um dos diálogos gravados com autorização da Justiça, um dos compradores fala sobre o odor do queijo com um representante da empresa.
“Tu já cheirou esse queijo?”, pergunta o homem.
“Não, não”, responde o outro.
“Os ‘cliente’ tudo querendo devolver. Não dá ‘pra’ aguentar o fedor desse queijo. Dentro da minha câmara não dá ‘pra’ aguentar o cheiro”, responde o comprador.
“Não tem como nós vender esse queijo ‘pros’ cliente”, prossegue.
“Qual? Aquele que eu levei hoje?”, pergunta o vendedor.
“É. Esse inteiro ‘tá’ azedo... ‘Fomo’ fatia ele aqui agora, ele virou num catingão brabo, que tu não tem nem como parar perto”, diz o homem.
G1

Postagens mais visitadas