Projeto de Lei que regulamenta a vaquejada como esporte será decidido nesta quarta (26)

O Projeto de Lei nº 225/2015, do deputado distrital Juarezão (PRTB), que tem como objetivo regulamentar a prática da vaquejada como modalidade esportiva, poderá ser vetado ou sancionado pelo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rolemberg, nesta quarta (26). A competição, que nasceu no sertão brasileiro, é contestada por ONGs protetoras dos animais. Nela, uma dupla de vaqueiros só tem uma meta: derrubar o boi pelo rabo dentro de uma arena. 


Segundo o deputado Juarezão, a vaquejada é praticada há mais de 40 anos no Distrito Federal e, apenas agora ativistas se manifestaram contra a prática. "Nunca vimos eles levantarem bandeira contra. Eu os convido a conhecerem o que é esse evento", diz. O parlamentar ainda acredita que, caso haja veto de Rollemberg, a competição não deixará de acontecer. "Se até hoje ela é realizada sem nenhuma normatização, não será um veto ao seu reconhecimento como esporte que a tornará proibida”, completa. 

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) apresentaram um parecer técnico na Câmara Legislativa durante uma audiência e, de acordo com o documento, a competição envolve maus-tratos a animais. "A prova realizada na vaquejada e, também em eventos similares, ferem o princípio constitucional de proteção ao meio ambiente por provocar danos aos animais, abusar, molestar e causar prejuízos físicos e mentais”, afirma Mara Moscoso, coordenadora de Direitos Animais da Sema.

Tradição ou maus-tratos?
A estudante Gabrielle Freire, simpatizante da vaquejada, confessa se emocionar com a insistência dos vaqueiros. "É emocionante e sempre assisto às disputas. Fico maravilhada com a fé inabalável dos vaqueiros e o público que a festa movimenta", argumenta. No entanto, a polêmica diverge o público. Ricardo Vaz, estudante, acredita que nenhum animal deve ser explorado nessas competições. "Um animal não deveria ser maltratado em hipótese alguma, ainda mais se tratando de diversão. Mas romper as barreiras das tradições ainda é algo difícil", explica. 

A empresária e promotora de eventos Stefania Leão critica a ação dos ativistas e garante que todas as precauções são tomadas para o bem estar dos animais durante a vaquejada. "Eles não conhecem como é feita a vaquejada. Falam, mas sem conhecimento. Eles precisam se especializar e frequentar as festas para ter uma noção do que acontece de fato. Nós estamos muito preocupados com a integridade dos animais e todo o evento é acompanhado por veterinários", garante. 
Para ela, os maus-tratos eram frequentes no passado, mas com a modernidade das técnicas, é possível realizar um evento sem ocorrências. "Os animais são caros, então tomamos todas as medidas para protegê-los como a ausência de chicotes, espora protegida com esparadrapo, boa alimentação e tipo de luva específica para o vaqueiro”, detalha. 

Proteção
Autora da primeira denúncia de possíveis maus-tratos em vaquejadas no Distrito Federal, a presidente da ONG Proanima, Simone Lima, revela que a competição é cruel a partir da primeira regra - derrubar o boi pelo rabo. "Essa é a parte mais sensível do animal, já que é um prolongamento da coluna vertebral. A lesão é muito forte e é extremamente cruel pegar um animal pesado como o boi e jogar no chão assim", lamenta. 

Simone afirma, ainda, que não é correto lucrar em cima dos animais e defende que todas as suas denúncias são fundamentadas. "Quando a única argumentação a favor de uma coisa é de que gera renda, é porque algo está errado. O desmatamento e a prostituição infantil também geram renda, mas são práticas ilegais. Tenho convicção de que os animais sofrem, pois veterinários e zootecnistas já emitiram laudos comprovando maus-tratos e a gente se baseia nisso", explica. 
Para o veterinário Murilo Bertoldo existem, atualmente, trabalhos que demonstram como conduzir e manejar os animais dentro de currais para diminuir o estresse e evitar o uso de varas, choques ou ferrões, como ocorria no passado. “É importante ressaltar que as pistas de vaquejada são cobertas com uma camada de, no mínimo, 30cm de areia. Isso evita possíveis lesões no animal no momento da queda”, ressalta Bertoldo.
Fonte de renda  
"Tenho dois filhos e dependo totalmente da vaquejada para sobreviver e sustentar minha família", declara Antonio Avelino. Hoje, ele trabalha como cinegrafista cobrindo as vaquejadas em todo o País, mas iniciou as atividades no evento como peão de corrida. 
Segundo Avelino, a prática é uma cultura que não pode acabar e alimenta muitas famílias. "As pessoas que são contra não tem conhecimento do que a vaquejada move. Seria bom conhecer um haras. Os animais recebem mais cuidados do que a gente na competição. Se essas competições tiverem um fim, muita gente vai ficar sem trabalho", defende. 

Justiça 
No último dia 5, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) encaminhou recomendação ao governador Rodrigo Rollemberg, para que vete integralmente o Projeto de Lei n° 225/2015. Segundo o órgão, "a proposta é inconstitucional e contrária ao interesse público”. 

Conforme afirma a promotora de Justiça Luciana Bertini, além de maus-tratos na arena, há também maus-tratos antecipados. "Existe o confinamento prévio por longo período, a utilização de açoites, a introdução de pimenta e mostarda via anal, choques elétricos e outras práticas de maus-tratos”, conclui. 
Fonte: Jornal de Brasília

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