Vacinas antirrábicas atrasam e correm o risco de ficarem para o ano que vem

Apontadas como uma estratégia de sucesso no controle da doença, as campanhas de vacinação contra a raiva em cães e gatos devem começar mais tarde neste ano ou até mesmo ficar apenas para o início do ano que vem. O atraso tem gerado preocupação em alguns Estados e entre entidades do setor de medicina veterinária.


Documento do Ministério da Saúde enviado a secretarias estaduais de saúde, ao qual o jornal Folha de São Paulo teve acesso, indica que a vacina antirrábica canina só estará disponível a partir de setembro e, por isso, "a organização da campanha deverá ser revista". O ofício não informa os motivos da "revisão". Diz que, à medida que forem recebidas, as vacinas serão distribuídas para Estados prioritários, onde há "iminente risco de transmissão de raiva". Doze estão nessa lista: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima e Amapá. Nos demais, segundo o documento, as campanhas devem iniciar somente a partir de novembro ou, ainda, no primeiro trimestre de 2016.

Cerca de 30 milhões de doses estão previstas. Recebidas do governo federal, as doses são distribuídas aos municípios, que organizam a campanha com os Estados. Geralmente, a vacinação ocorre entre julho e setembro. Em São Paulo, parte dos municípios já planejava iniciá-la em julho. Agora, a secretaria estadual solicitou as doses para novembro, mas a data não está confirmada. Essa não é a primeira vez em que há atrasos na vacinação. Em 2014, a demora no repasse das doses fez com que a campanha fosse adiada em alguns Estados, como São Paulo - onde começou apenas em outubro –, ou fosse substituída por ações de vigilância em outros, como Minas Gerais. Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os únicos que não recebem a vacina, por não terem registro de circulação do vírus.

Prazo estendido
As campanhas de vacinação costumam mobilizar prefeituras e donos de animais. Não à toa. Pesquisa divulgada neste ano por IBGE e Ministério da Saúde mostra que, em 44% dos domicílios, há pelo menos um cachorro. A estimativa é que haja 52 milhões de cães no país. Gatos somam 22 milhões. A raiva é uma doença viral, que pode ser transmitida entre mamíferos por meio da mordida. A doença afeta o sistema nervoso e gera danos à coordenação motora. Quando infectados, a letalidade em humanos é próxima a 100%. O ideal é que a vacinação ocorra a cada ano como forma de garantir a proteção. "O perigo está em postergar. O animal vai diminuir sua imunidade", diz Josélio Moura, da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária. 

Com a mudança, o prazo pode ser estendido em alguns pontos do país. No Distrito Federal, por exemplo, a última ocorreu em fevereiro e março do ano passado. "Se for só no primeiro trimestre de 2016, ficará muito tempo descoberto", diz Wanderson Ferreira, da Anclivepa (associação de veterinários de pequenos animais). "Estamos preocupados. Há circulação do vírus, e só temos controle com a vacina", diz o coordenador de zoonoses do Pará, Reynaldo Lima. A política de vacinação é tida como um dos motivos do sucesso do controle da raiva. Nos últimos quatro anos, foram registrados no país 11 casos da doença em humanos – um neste ano. Em 2014, foram identificados 19 cães e gatos com raiva no Brasil. Em São Paulo, o atraso já preocupa dono de cães.

O presidente da ONG animal Arca Brasil, Marco Ciampi, lamenta mais um atraso. "É uma pena que os animais estejam vulneráveis a esse tipo de cenário, no qual um quadro de uma doença incurável já pode virar um desastre". Também protetor animal, o gerente administrativo da Apasfa (Associação Protetora de Animais São Francisco de Assis), Luiz Scalea diz que os afetados com a situação são os cães e gatos. "Se acontecer algo, vão voltar a falar da eutanásia nos animais. Não pode ter esse desleixo, é uma questão de saúde pública com uma doença que é contagiosa e fatal", diz.

Procurado pelo jornal Folha de São Paulo e informado sobre o teor da reportagem, o Ministério da Saúde negou os atrasos. Em nota, a pasta diz que não há definição de mês específico para a realização da campanha nos Estados. Segundo o ministério, as datas são definidas "de acordo com a realidade de cada região" do país. Nos últimos quatro anos, no entanto, ainda de acordo com a pasta federal, "a vacinação tem se concentrado entre agosto e outubro".

Para o ministério, "o mês de início da vacinação não interfere nas estratégias de controle da doença". A imunização, contudo, "deve ser anual e permanente". Hoje, as regiões com maior fragilidade a surtos são Nordeste e áreas de fronteira. Atualmente, o Brasil está próximo de eliminar a doença causada pelo tipo 2 do vírus canino, completa a pasta.

Centro de Controle de Zoonoses, ligado à Covisa (Coordenação de Vigilância em Saúde), disse que as vacinas são adquiridas pelo Ministério da Saúde e repassadas para os Estados, que as distribui para os municípios. Informou, também, que a vacinação é a medida mais importante para a prevenção e controle da raiva.

A informações são do jornal Folha de São Paulo

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