Pelo de rato em produtos alimentícios é aceito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil

Em março do ano passado, foi publicada no Diário Oficial da União uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que é, no mínimo, um tanto quanto controversa. A RDC 14/2014 define limites de tolerância para matérias estranhas e para fragmentos de pelos de roedores (rato, ratazana e camundongo) em alguns tipos de alimentos industrializados.
 
A norma aprovada aponta limites máximos de “matérias estranhas macroscópicas e microscópicas”, como fragmentos de insetos (menos de baratas, formigas e moscas) e pelos de rato, aceitos em produtos como extrato de tomate, ketchup, achocolatados, pimentas e canela em pó.

A Anvisa explica que, sem esses parâmetros, as vigilâncias encontram dificuldade na aplicação de medidas sanitárias, alvo recorrente de ações judiciais. O diretor da agência, Renato Porto, disse que eliminar qualquer traço dessas matérias é, muitas vezes, inviável.
 
No ano passado, uma associação de defesa do consumidor realizou uma análise em uma marca de ketchup e encontrou três pelos de roedor em amostra de 100 gramas do produto. Já em 2012, a associação também detectou a presença de pelo de roedor em três amostras de uvas passas e castanha-do-Pará sem casca, em teste com itens adquiridos em São Paulo. O problema também foi detectado em avaliações de ketchup e molho de tomate, realizadas em anos anteriores.
 
CONSUMIDORES PERPLEXOS
 
“Tenho certeza que quem aprovou essa norma não compra esses alimentos. É inadmissível trabalhar tanto para levar comida para casa e saber que, no meio dela, pode ter pelo de rato e partes de outros insetos”, reclama a enfermeira Mara Aparecida do Nascimento.
 
A dona de casa Juliana Moraes Silva também vê a decisão da Anvisa com perplexidade. De acordo com ela, a medida é “descabida”. “Tentamos oferecer os melhores alimentos para os nossos filhos e o governo permite com que o povo coma pelo de rato? Pelo jeito, teremos que plantar os nossos próprios alimentos”, afirma.
 
PRODUTOR QUESTIONA
 
Agricultor e proprietário do Empório da Terra, Laércio Ribeiro Faria questiona tal resolução, uma vez que a própria Anvisa tem criado inúmeros empecilhos para que o produtor rural coloque seus produtos caseiros e orgânicos à venda no mercado. “A fiscalização é rígida demais conosco. Exige uma série de coisas para podermos vender uma rapadura, um ovo caipira e, agora, faz isso com os alimentos industrializados. Isso é muito injusto”, desabafa.
 
 
OS DOIS LADOS
 
A nutricionista paraisense Tatiane Motta Martins diz compreender os dois lados da questão. A profissional entende a revolta dos consumidores, que receberam a norma com repúdio. Contudo, ela explica que a Anvisa ressalta que o texto não “permite” a presença de matérias estranhas, mas “tolera” quando há ocorrência mesmo com boas práticas de fabricação e sem colocar em risco a saúde da população.”O certo seria que não houvesse nenhum fragmento, mas isso pode fugir do controle dos responsáveis pela qualidade desses alimentos e acabar acontecendo”.
 
Tatiane afirma, contudo, que o ideal é que as empresas do ramo alimentício sigam com rigor as normas de controle de qualidade. “O nível é um ponto de partida para a fiscalização, que antes não acontecia. Porém, é preciso se atentar às normas, pois só assim os consumidores terão segurança em adquirir esses produtos”, conclui.
 
Veja os limites de “matérias estranhas” definidos pela Anvisa em cada produto:*
 
- Produtos de tomate: um fragmento de roedores para cada 100 gramas;
 
- Geleia de frutas: 25 fragmentos de insetos para cada 100 gramas;
 
- Café torrado e moído: 60 fragmentos de insetos para cada 25 gramas;
 
- Chá de camomila: 25 insetos mortos para cada 25 gramas;
 
- Canela em pó: um fragmento de roedor para cada 25 gramas;
 
- Chocolate e produtos acho-colatados: um fragmento de roedor para cada 100 gramas;
 
- Orégano: 3% de areia ou cinzas insolúveis em ácido.
 
*Fonte: Folha de São Paulo
 

Postagens mais visitadas