Principal cientista da Coca-Cola deixa empresa após escândalo

A chefe do departamento de pesquisas científicas da Coca-Cola está deixando o cargo, após ter sido revelado, esta semana, que a gigantesca companhia de bebidas vinha financiando estudos que, propositalmente, minimizavam o papel dos produtos da empresa na disseminação da obesidade no mundo.


A doutora Rhona S. Applebaum, diretora de Ciência e Saúde da Coca-Cola, ajudou a financiar a ONG Global Energy Balance Network. Os membros do grupo eram cientistas de universidades que, por meio de pesquisas, incentivavam o público a se concentrar em fazer exercícios físicos e se preocupar menos com o número de calorias ingeridas com os alimentos e bebidas.

A Coca-Cola gastou US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 5,6 milhões) no ano passado para apoiar o grupo, incluindo uma doação de US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões) para a Escola de Medicina da Universidade do Colorado, onde o presidente da ONG, James O. Hill, um proeminente pesquisador sobre obesidade, leciona.


Os laços financeiros da Coca-Cola com o grupo foram revelados pela primeira vez em um artigo no jornal “The New York Times” em agosto, o que levou a opinião pública a acusar a companhia de tentar influenciar investigações científicas sobre bebidas açucaradas. A universidade devolveu o dinheiro para a Coca-Cola este mês, depois que especialistas em saúde pública se mostraram preocupados com a relação entre a empresa e as pesquisas.
Rhona, uma cientista de alimentos com Ph.D. em microbiologia, era a cientista-chefe da Coca-Cola desde 2004. Nessa função, ela liderou a estratégia da empresa de trabalhar com pesquisadores como uma forma de conter as críticas sobre suas bebidas.

Em uma conferência da indústria de alimentos em 2012, Rhona deu uma palestra em que descreveu a estratégia da Coca-Cola de “cultivar relacionamentos” com cientistas renomados, como uma forma de “equilibrar o debate” sobre refrigerantes.

Uma porta-voz da Coca-Cola disse, nesta terça-feira, que Rhona, de 61 anos, tinha tomado a decisão de se aposentar em outubro e que sua aposentadoria “foi aceita e a transição está em andamento”. A empresa recusou um pedido de entrevista com a cientista.

A Coca-Cola afirmou que, embora tenha oferecido apoio financeiro à Global Energy Balance Network, a empresa não teve qualquer influência sobre o grupo ou sobre as pesquisas produzidas. Mas novos relatórios, divulgados esta semana pela agência The Associated Press, mostraram que Rhona e outros executivos da Coca-Cola ajudaram a escolher os líderes do grupo, a criar o comunicado sobre sua missão e projetar seu site.
A Associated Press também publicou uma série de e-mails entre Hill, da Universidade do Colorado, e executivos da Coca-Cola, que revelaram a estratégia inicial da Global Energy Balance Network. Antes da ONG ser criada, Hill tinha proposto publicar um estudo que iria ajudar a empresa a afastar as críticas de seus produtos, transferindo a culpa da obesidade para o sedentarismo.

“Aqui está meu conceito”, escreveu Hill aos executivos da Coca-Cola sobre sua proposta de estudo. “Eu acho que [a pesquisa] poderia fornecer uma forte razão para por que uma empresa que vende água com açúcar deve se concentrar em promover a atividade física. Este seria um estudo muito grande e caro, mas poderia ser um divisor de águas. Precisamos que este estudo seja feito”.

Em outros e-mails obtidos pela Associated Press, o cientista disse aos executivos que desejava trabalhar em nome da empresa para melhorar a sua reputação. Na época, a Coca-Cola e outras empresas de bebidas estavam em meio a uma batalha com a mídia, com as vendas de refrigerantes em declínio e cidades em todos os Estados Unidos propondo impostos sobre as bebidas, que estavam sendo relacionadas a obesidade, diabetes e doenças cardíacas.
Hill disse, em um e-mail aos emp
resários, que não era “justo” que a Coca-Cola estivesse sendo apontado como “o vilão número um da obesidade no mundo”.
“Eu quero ajudar a sua empresa a evitar que ela se torne a imagem de um problema na vida das pessoas, e voltar a ser uma empresa que traz coisas importantes e divertidas para eles”, acrescentou Hill.

Os e-mails também mostraram que Muhtar Kent, presidente-executivo da Coca-Cola, queria que Hill ajudasse a moldar a cobertura da mídia sobre refrigerantes.

Em um e-mail de 18 de outubro, Kent perguntou a Rhona e a outros altos funcionários na Coca-Cola como ele poderia convencer o apresentador Charlie Rose, da CBS News, a convidar Hill para seu programa de TV. O “CBS This Morning” tinha acabado de exibir uma reportagem sobre a quantidade de exercício necessária para queimar as calorias de uma lata de Coca-Cola. Rhona respondeu ao e-mail de Kent naquele dia enviando as credenciais de Hill, que, no entanto, não apareceu no programa.

Nesta terça-feira, uma porta-voz da Coca-Cola disse que Kent enviou o e-mail em questão pois ficou preocupado que a reportagem estivesse “imprecisa”.

Em um comunicado, Kent afirmou: “Tornou-se claro para nós que não havia um nível suficiente de transparência no que diz respeito ao envolvimento da empresa com a Global Energy Balance Network. Claramente, nós temos mais trabalho a fazer para que os valores desta grande empresasejam refletidos em tudo o que fazemos”.

Hill não quis comentar o incidente, porém, em uma entrevista em agosto, ele insistiu que a Coca-Cola não falava em nome dele ou de sua organização. “Eles não estão comandando o espetáculo. Nós estamos comandando o shoe”, disse ele.



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