Estudante de veterinária aprende com gatos paraplégicos

Por que causar sofrimento em cobaias em busca de tratamentos e curas se há tantos animais doentes e carentes precisando de ajuda?
Essa é a pergunta que todo estudante, professor e pesquisador da área veterinária deveria fazer. Hellen Cristina de Sousa, que cursa o sétimo semestre de Medicina Veterinária em Brasília, por exemplo, escolheu um caminho ético e, inclusive, bastante solidário, para estudar a melhor forma de tratar animais com problemas motores. Durante dois anos ela cuidou de dois gatos paraplégicos, Valentin e Valentina (que já faleceram) em sua própria casa e, recentemente, adotou a gatinha Mia que foi atropelada com dois meses de idade (agora está com três) e também tem dificuldade para andar.
Gatinha Mia teve fraturas em atropelamento e também foi adotada pela estudante de Veterinária. Descrição: Gatinha filhote rajada está deitada com atadura na perna. Tem belos olhos grandes. Foto: Arquivo pessoal
Gatinha Mia teve fraturas em atropelamento e também foi adotada pela estudante de Veterinária. Descrição: Gatinha filhote rajada está deitada com atadura na perna. Tem belos olhos grandes. Foto: Arquivo pessoal
“A pessoa que a encontrou na rua não podia custear o tratamento e pediu que a sacrificassem achando que isso acabaria com o sofrimento dela, mas a clínica onde faço estágio não deixou isso acontecer e estamos tratando dela. Teve fraturas e já fez uma cirurgia. Ela não anda perfeitamente, mas sobe na cama e corre. Resolvi adotá-la e cuidar dela como cuidei de outros gatos especiais. Aliás, hoje posso dar dicas de tratamento para pessoas com gatos nas mesmas condições”, explica Hellen num exemplo bastante inspirador para alunos e professores.
A estudante tem interesse de, quando formada, ajudar ainda mais gatos especiais com a experiência que ela tem adquirido em seu dia a dia. Valentin, por exemplo, caiu do quinto andar e sua tutora, quando soube que ele ficaria paraplégico, pediu para o veterinário matá-lo: “Ele ficou comigo dois anos e fomos muito felizes. Ele usava fraldas e eu precisava estimular a bexiga dele, dava banho duas vezes para não assar e passava pomada de bebê. Ainda assim, às vezes ele tinha necroses que eu também tratava. Ele não se adaptou com cadeirinha de rodas, mas se movimentava bem e subia até na cama, cadeira e sofás”.

Valentina também não mexia patas traseiras, mas se locomovia bem e foi assistida por Hellen durante dois anos. Descrição: Gata branca e rajada adulta está de pé olhando para o alto. Foto: Arquivo pessoal
Valentina também não mexia patas traseiras, mas se locomovia bem e foi assistida por Hellen durante dois anos. Descrição: Gata branca e rajada adulta está de pé olhando para o alto. Foto: Arquivo pessoal
Valentina entrou na vida de Hellen como um presente de Natal, exatamente no dia 25 de dezembro de 2013 e morreu em setembro do ano passado. Ela tinha sido atacada por dois cães na rua, perdeu movimento das patas traseiras e um olho. Além disso, tinha leucemia. No entanto, ao contrário de Valentin, a gatinha fazia xixi sozinha sem auxílio de Hellen e ia até o tapetinho higiênico sozinha.
“Com certeza, tratar animais assim, com os recursos que a medicina oferece, é muito melhor e mais humano que causar em cobaias sofrimentos que muitas vezes não levam a nada. Como futura veterinária eu jamais iria causar sofrimento em animais perfeitos em busca de curas”, comenta Hellen que escolheu uma forma de aprendizado muito diferente do praticado em vários cursos de Veterinária como o da Universidade Federal de Viçosa (MG), que em dezembro, por decisão judicial, teve de soltar 14 cães mantidos como cobaias em dolorosos experimentos, que incluíam rompimento de ligamentos das pernas, conforme matéria da ANDA que registrou todo o processo de soltura e as consequências para os animais.
Valentin tinha que ter a bexiga estimulada, usava fraldas e às vezes surgiam necroses. Mas todo o tempo contou com o apoio de Hellen.  Descrição: Gato amarelo de olhos verdes está deitado numa cama com colcha com estampa de flores. Foto: Arquivo pessoal
Valentin tinha que ter a bexiga estimulada, usava fraldas e às vezes surgiam necroses. Mas todo o tempo contou com o apoio de Hellen. Descrição: Gato amarelo de olhos verdes está deitado numa cama com colcha com estampa de flores. Foto: Arquivo pessoal
“Não vejo nenhum fundamento que me leve a acreditar que causar lesões em animais saudáveis seja a melhor forma de tratar doenças. Eu não preciso quebrar a perna de um animal causando dores extremas para saber qual o melhor tratamento. Precisamos usar o que temos, ou seja, animais que precisam de ajuda já com algum membro lesionado e proporcionar neles bem-estar e cura”, diz Hellen.
Universidades como a UFV precisam rever seus métodos de estudo e pesquisa a fim de adotar uma postura ligada à Nova Ciência. E são os estudantes que precisam exigir as mudanças e também abrir a mente para o que há de novo e mais ético. Tratamentos de certas doenças podem, por exemplo, ser testados em animais que realmente possuem essas enfermidades tornando-se pacientes e não cobaias. É hora também da mídia em geral tirar esse assunto do porão, como a ANDA vem constantemente fazendo, e dar a devida importância as inovações para evitar esse sofrimento da vivissecção que é um dos mais terríveis e, lamentavelmente, persistente em pleno século XXI.
Mia será mais um desafio para Hellen que não aprova a utilização de cobaias uma vez que muitos bichinhos como essa gatinha precisam de ajuda e, em contrapartida, também ajudam a Medicina Veterinária.  Descrição: Gatinha rajada está deitada sobre uma mesa azul numa clínica. Ela está olhando para a veterinária. Foto: Arquivo pessoal
Mia será mais um desafio para Hellen que não aprova a utilização de cobaias uma vez que muitos bichinhos como essa gatinha precisam de ajuda e, em contrapartida, também ajudam a Medicina Veterinária. Descrição: Gatinha rajada está deitada sobre uma mesa azul numa clínica. Ela está olhando para a veterinária. Foto: Arquivo pessoal
O Brasil tem, por exemplo, um pesquisador ganhador do prêmio internacional Lush Prize concedido para pesquisas científicas sem uso de cobaias. É o biólogo formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Róber Bachinski. O biólogo e pesquisador Sérgio Greif é outra fonte de conhecimento para universidades dispostas a adotar uma postura científica moderna. Pesquisadores com nova visão não faltam. Agora é preciso que mais estudantes como Hellen ajudem a mudar esse triste cenário da vivissecção.
Fonte ANDA

Postagens mais visitadas