Luz azul emitida pelo celular gera círculo vicioso para obesidade

Com o aumento das funções oferecidas pelos celulares fica cada vez mais difícil ficar longe do aparelho. Para quem não consegue se desgrudar do smartphone, deitar na cama e dar aquela última checada nas redes sociais antes de dormir já virou hábito. 

Entretanto, esse costume é capaz de prejudicar o sono e, consequentemente, contribuir para a obesidade, segundo estudos realizados no Brasil e em outros países.
Baseando-se em pesquisas publicadas nos periódicos “International Journal of Obesity” e “Chronobiology International”, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) concluiu que a luz artificial emitida pelos aparelhos eletrônicos compromete a qualidade do sono, altera o metabolismo e faz com que o usuário consuma mais alimentos calóricos durante o dia.
Esses estudos mostram que o grande problema relacionado ao uso de celulares antes de dormir é que a luz azul por eles emitida inibe a produção de melatonina e ativa os neurotransmissores de vigília com atividades que aumentam o nível de cortisol. Em excesso esse hormônio causa ansiedade e estresse.

Já a melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, situada no centro do cérebro. A secreção da melatonina é produzida durante a noite em resposta à escuridão – portanto, ela atinge um nível máximo no meio da noite e, depois, diminui pela manhã.
“A diminuição da melatonina devido à luz de aparelhos eletrônicos faz com que a qualidade do sono seja prejudicada. Com isso, o organismo não se recupera e, no dia seguinte, o paciente tende a ingerir alimentos hipercalóricos”, explica o presidente da SBCBM, Josemberg Campos.
O sono modula a função neuroendócrina e o metabolismo da glicose. Com a diminuição da sua qualidade, há alterações metabólicas e endócrinas, incluindo a diminuição da tolerância à glicose e da sensibilidade à insulina, o que proporciona o aumento do apetite no dia seguinte.
“Durante o sono acontece uma espécie de ‘limpeza’ do nosso organismo a partir da metabolização de alguns elementos, a eliminação de toxinas e a retirada de alguns hormônios. Quando isso não ocorre apropriadamente, o indivíduo sente mais necessidade de ingerir carboidratos, gorduras e açúcares”, diz Campos.
Por isso, segundo o médico, muitos problemas de sono podem ser um fator no aumento da obesidade, e a exposição à luz artificial durante a noite também influi nas ocorrências dessa doença. A prevenção é – ao menos teoricamente – simples: o ideal é manter uma noite bem dormida de sete a oito horas, atrelada a uma alimentação saudável e à prática de exercícios físicos regulares.
Rotina. Com problemas para dormir há sete anos, a advogada Elis Bastani, 30, notou que, com o uso do celular ao se deitar, pegar no sono tornou-se mais difícil. Ela conta que, antes dos smartphones, utilizava o aparelho para jogos e, agora, não consegue ficar sem checar as redes sociais.
“Como não consigo dormir bem, acordo atrasada e, geralmente, não tomo café da manhã. Acabo almoçando muito e depois me sinto cansada o dia todo, o que também interfere em conseguir praticar exercícios físicos regularmente”.
Devido aos problemas para dormir e à incapacidade de manter uma rotina regular, Elis acabou ganhando 40 kg. E, mesmo atribuindo isso ao uso excessivo de celular, ela explica que não consegue ficar longe do aparelho. “Onde não há internet, costumo pegar no sono mais cedo e sinto que tenho mais disposição no dia seguinte. Mas, nesses casos, fico nervosa, ansiosa e me sinto isolada por não ter acesso ao aparelho. É uma experiência bem ruim”, lamenta.
Saiba mais

Pesquisa. Para a realização dos estudos publicados no “International Journal of Obesity”, foram analisadas imagens de satélite que mostram a iluminação noturna no mundo e dados da Organização Mundial de Saúde sobre obesidade.

Flash
Sintético. A melatonina sintética aparece como uma possível solução para o problema. Ela é facilmente encontrada em sites estrangeiros mas, no Brasil, sua venda é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Paliativo. Alguns médicos recomendam o uso de melatonina, embora ela não resolva o problema de quem usa os aparelhos eletrônicos antes de dormir.
Óculos de lentes alaranjadas podem ajudar
Embora não haja estudos que determinem quanto tempo antes de dormir o celular deve ser evitado, Josemberg Campos recomenda que esse uso não seja feito quando a pessoa já está deitada. “A luz que deve estar na cabeceira é, por exemplo, a de um abajur. Se a pessoa deseja fazer uma leitura antes de pegar no sono, o ideal é que use essa iluminação de pequena intensidade”, alerta.

Já o estudo utilizado como base pela SBCBM, publicado no “Chronobiology International”, descobriu que o uso de óculos protetores com lentes alaranjadas, que filtram a luz azul de aparelhos eletrônicos, duas horas antes de dormir, têm um impacto significativo na qualidade do sono e na secreção de melatonina. Esses óculos podem ser encontrados em casas de material de construção e custam de R$ 10 a R$ 40. (MA)

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