Afinal, pássaros peidam?

A ornitóloga americana Laura Erickson observa pássaros desde os anos 1960, quando ainda estava na pré-escola e ficou fascinada com os penudos. 

De lá para cá, ao longo de mais de meio século, passou milhares de horas convivendo de perto com aves, vigiando seus mínimos movimentos, prestando atenção em cada som ou odor. "E nunca na vida detectei nada que lembrasse um pum", escreveu ela em seu blog.
Realmente, não há registros na literatura científica de um único peido de uma ave. A única possível exceção é um artigo de 1965 do ornitólogo americano Richard Weisbrod, que, após passar o inverno de 1963 pacientemente olhando cada movimento de uma família de gaios-azuis em seu ninho, um dia notou que o cocô veio acompanhado de um gás branco visível. "As fezes escorreram ao chão, enquanto o gás flutuou paralelo à cauda levemente levantada, e se dissipou rapidamente no ar frio". Mas o mais provável é que o que Weisbrod viu não passasse de vapor d'água - o mesmo que percebemos na nossa respiração em dias muito frios. Afinal, puns costumam ser invisíveis, e o cientista não mencionou odor algum.
Ocorre que os peidos, que são comuns em todos os mamíferos, inclusive eu e (perdoe a indiscrição) você, são formados pela fermentação do alimento dentro dos intestinos. Bactérias se alimentam de nossa comida e soltam gases - nosso pum não passa do resultado da soma dos vários micropuns bacterianos. Laura acredita que, como as aves têm intestino bem mais curto, não há espaço suficiente para que ocorra tanta fermentação.
Outra diferença importante entre mamíferos e aves é o aperto da porta de saída do eventual pum. O ânus mamífero é bem justinho, o que força o gás a se espremer para sair, produzindo som. Já as aves, cuja cloaca precisa deixar passar não apenas cocô, mas também imensos ovos, tem um esfíncter mais frouxo. Prova disso é o cocô aviário: que escorre e pinga na cabeça dos desavisados, enquanto que o cocô mamífero sai esculpido sob pressão. Em outras palavras: ainda que um pássaro peide, provavelmente ninguém escutaria.
Numa entrevista sobre o candente assunto dada à revista Popular Science, o veterninário Mike Murray, do Aquário de Monterey, disse que, "se eu visse num raio-x um gás no trato gastrointestinal de uma ave, suspeitaria que há algo muito errado com ela". Já nos mamíferos, gases intestinais no raio-x são rotina. No elevador também.

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