O que os outros pensam de você por causa do seu jeito de andar

Psicólogos estudam essas suposições há mais de 70 anos, e os resultados sugerem que a maioria das pessoas tende a fazer interpretações parecidas sobre a personalidade dos outros a partir do estilo de caminhar. 

Ou seja: após acompanhar aquele homem com jeito de caubói entrar no bar, é provável que você e eu concordemos sobre o tipo de personalidade dele.
Mas até que ponto essas suposições são precisas? E quais outras características podemos inferir a partir da marcha de alguém? Pode parecer assustador, mas a melhor pessoa para responder isso talvez seja um psicopata.
Uma das primeiras pesquisas sobre modo de andar e personalidade foi publicada em 1935 pelo psicólogo alemão Werner Wolff. Sem o conhecimento dos participantes, ele filmou cinco homens e três mulheres que vestiam macacões (para esconder outros traços de personalidade) e cumpriam uma tarefa de lançamento de anéis.
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Image captionUm balançar no estilo John Wayne induz observadores externos a conceber um certo tipo de personalidade
Mais tarde, os participantes assistiram aos filmes, editados de modo a esconder suas cabeças, e fizeram interpretações sobre as personalidades de cada um baseadas apenas nos modos de andar.
O estudo lançou mão de estratégias engenhosas - o som da fita de gravação, por exemplo, teve que ser camuflado com um toque de metrônomo.
Wolff descobriu que os participantes rapidamente formaram impressões sobre os outros a partir do caminhar deles. E houve muitas opiniões parecidas - veja, por exemplo, as descrições feitas para o "indivíduo 45":
"Pretensioso, mas sem base para isso."
"Alguém que quer chamar a atenção a qualquer preço."
"Vaidade intencional e consciente, desejo de ser admirado."
"Inseguro internamente, tenta parecer seguro aos outros.
"Tedioso, submisso de alguma forma, inseguro."
Parece incrível que participantes tenham tido impressões tão parecidas sobre essa e outras pessoas.
Claro que com uma amostra tão pequena eles podem ter captado outros traços além do caminhar. E havia ainda outros problemas nessa pesquisa: as pessoas se conheciam, embora não tivessem se reconhecido pelos vídeos.
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Image captionPsicólogos americanos identificaram nos anos 1980 duas maneiras básicas de andar
Pesquisas modernas são mais sofisticadas - a tecnologia digital pode transformar o caminhar de uma pessoa em pontos de luz em um fundo preto, com os pontos brancos mostrando o movimento de cada uma de suas principais juntas.
Isso elimina da cena qualquer traço que não seja o movimento do andar.

Balanço ou deslize

Usando essa abordagem, psicólogos americanos descobriram no final dos anos 1980 que existem, basicamente, dois tipos de andar, que podem ser caracterizados por um estilo mais jovem ou mais velho de movimento.
O primeiro tem um ritmo mais cadenciado, mais balanço nos quadris, maior movimento nos braços e passos mais frequentes; o último é mais rígido e lento, com maior inclinação à frente.
Um ponto crucial é que o jeito de andar não correspondia necessariamente à idade do caminhante - você pode ser novo com um andar "velho" e vice-versa.
Participantes concluíram que pessoas que andavam em um estilo mais jovem eram mais felizes e poderosas. Isso se repetiu mesmo quando a verdadeira idade das pessoas era revelada por meio de seus rostos e corpos.
Essas pesquisas comprovaram como pessoas fazem inferências sobre os outros baseadas no acompanhamento de seus passos, mas não investigaram se essas suposições são corretas.
Para isso, é preciso recorrer a um estudo suíço-britânico publicado há alguns anos, que comparou as notas que as pessoas davam para as próprias personalidades com suposições sobre outras pessoas, baseadas em exibições luminosas de seus passos.
Seus resultados mais uma vez sugeriram a existência de dois tipos básicos de caminhar, embora tenham sido descritos em termos ligeiramente diferentes.
O primeiro seria um estilo expansivo e solto, detalhado por observadores como sinal de audácia, extroversão, confiabilidade e calor humano. O outro seria um estilo lento e relaxado, interpretado como sinal de estabilidade emocional.
Mas os julgamentos dos observadores estavam errados - esses dois estilos distintos de caminhar não se correlacionavam com esses traços, pelo menos no que se refere às notas dadas pelos caminhantes às suas próprias personalidades.

Falsa impressão

A lição de todas essas pesquisas é que tratamos o andar de uma pessoa como tratamos seu rosto, vestuário ou sotaque - como fonte de informação sobre o tipo de pessoa com a qual lidamos.
Mas enquanto os resultados sugerem que nossas suposições são boas para rostos, tendemos a fazer julgamentos errados quando o assunto é o caminhar.
Pelo menos esse é o caso da maioria dos julgamentos que fazemos. Mas há um jeito mais sinistro de fazer suposições acertadas sobre o outro baseado no nosso andar - e tem a ver com nossa vulnerabilidade.
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Image captionTendemos a fazer suposições erradas baseadas no jeito de caminhar dos outros
Alguns dos primeiros achados dessas pesquisas mostraram que homens e mulheres com passos mais curtos, menor balanço nos braços e andar mais lento tendem a ser vistos como mais vulneráveis (perceba a semelhança com o estilo "velho" de caminhar identificado na pesquisa sobre personalidade).
Um estudo bem perturbador feito no Japão, publicado em 2006, jogou lenha nessa fogueira ao questionar homens sobre a possibilidade de abordar ou tocar de forma inapropriada diferentes estudantes mulheres cujo caminhar foi mostrado em exibições de pontos de luz.
Baseados unicamente no jeito de andar das mulheres, os homens tenderam a dizer que seriam mais ousados com mulheres com traços mais vulneráveis de personalidade, como ser mais introvertida e emocionalmente instável.

Psicopatia

E algo mais preocupante: pesquisas mostraram que detentos com índices de psicopatia mais altos são particularmente precisos na detecção de pessoas que já foram atacadas no passado, simplesmente vendo vídeos dessas pessoas caminhando.
Parece que alguns detentos tinham plena consciência dessa habilidade: os que tinham índices mais altos de psicopatia declararam que prestavam atenção ao caminhar das pessoas ao fazer seus julgamentos.
Isso converge com evidências reais. O serial killer Ted Bundy, por exemplo, disse que poderia "descrever uma vítima pelo jeito que ela descia a rua".
Todo esse campo de pesquisa levanta a questão sobre a possibilidade de adaptar o modo de andar para mudar a impressão que você deixa.
Algumas pesquisas sugerem que você pode aprender a andar de maneira a transmitir uma mensagem de invencibilidade - mais rápido, com passada longa e movimentos de braço mais vigorosos - e que mulheres adotam elementos desse estilo de maneira instintiva em ambientes mais perigosos.
Mas psicólogos que analisaram os perfis de personalidade associados a esses estilos expansivos ou lentos de caminhar dizem que não é claro se esses traços podem ser ensinados.
Então provavelmente não é recomendável lutar muito para causar uma impressão com o jeito de andar. Ou você pode acabar como na tentativa desesperada de parecer durão do "indivíduo 45", ou como aquele caubói.

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