Unesp desenvolve vacina contra esporotricose

A Unesp está desenvolvendo uma vacina veterinária contra a esporotricose, doença que afeta animais e seres humanos, com presença em todo o País, especialmente no Rio de Janeiro. 


A enfermidade é causada por fungos do chamado complexo Sporothrix schenckii, que reúne diversas espécies, das quais a mais virulenta é a Sporothrix brasiliensis, exclusiva do Brasil. Em fase de estudos pré-clínicos, a vacina será destinada a gatos, o principal transmissor dessa zoonose, e já teve seu pedido de patenteamento encaminhado para a Agência Unesp de Inovação (AUIN).

O candidato vacinal foi inicialmente desenvolvido no doutorado do estudante cubano Deivys Leandro Portuondo Fuentes, aluno do Programa de Pós-graduação em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), Câmpus da Unesp de Araraquara. O trabalho teve orientação da professora Iracilda Zeppone Carlos, da FCF, e coorientação do professor Alexander Batista Duharte, docente da Universidade de Ciências Médicas de Santiago de Cuba (Cuba).
Bolsista da Fapesp, Fuentes explica que trabalhou inicialmente com uma espécie do complexo Sporothrix schenckii, selecionando várias proteínas da parede que reveste o fungo e fazendo o sequenciamento de seus aminoácidos. Essas proteínas foram então formuladas e testadas com dois adjuvantes – substâncias que ajudam a estimular a resposta imunológica do organismo.
As formulações obtidas da associação das proteínas com os adjuvantes passaram por testes in vitro e in vivo – feitos em camundongos –, para avaliar sua capacidade imunogênica, ou seja, de induzir a produção de anticorpos e uma resposta celular. Paralelamente, foi avaliada a toxicidade in vitro e in vivo dessas formulações.
“Numa segunda etapa, nós comprovamos que duas das formulações foram bem-sucedidas na geração de uma resposta protetora em camundongos infectados com o fungo”, comenta Portuondo Fuentes. O pesquisador atualmente está realizando seu pós-doutorado. “Agora, estamos refinando as formulações, utilizando proteínas recombinantes e sintéticas, examinando seu potencial frente às várias espécies do complexo Sporothrix schenckii.”
A pesquisa também tem a colaboração das docentes Ana Marisa Fusco Almeida e Maria José Soares Mendes Giannini do Centro de Proteômica da FCF, da professora Fanny Guzman, da Universidade Católica de Valparaíso (Chile), do docente Julio Cesar Borges do Instituto de Química da USP de São Carlos; e do pesquisador Sandro Antonio Pereira, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), Rio de Janeiro (RJ).
A doença
Até recentemente a esporotricose era uma doença negligenciada. Ela está espalhada por todo o mundo, com inúmeras áreas endêmicas, sendo uma das micoses subcutâneas mais frequente em regiões como a América do Sul, principalmente o Brasil. A esporotricose é uma enfermidade causada por fungos do complexo Sporothrix schenckii, que se encontram principalmente em terrenos onde há material vegetal em decomposição, sendo transmitida por espinhos ou gravetos de plantas, daí o nome de “doença de jardineiro”. Nos últimos anos a esporotricose tornou-se uma importante zoonose no Brasil, sendo os gatos os animais mais acometidos pela doença. Quando esses felinos cavam a terra nesses locais, acabam por abrigar os fungos em suas unhas e como têm o hábito de se coçarem, principalmente na face, podem adquirir a enfermidade, tornando-se potenciais transmissores para os homens.
No ser humano, a doença pode ter diversas manifestações clínicas. No caso mais simples, limita-se a uma doença cutânea, apresentando nódulos no local da infecção. Sua manifestação mais comum é como doença linfocutânea, quando atinge os vasos linfáticos, principalmente do braço. Pode também se espalhar pelo corpo, como uma infecção sistêmica.
A ocorrência mais grave dessa zoonose se dá entre pessoas com sistema imunológico comprometido – como os pacientes com diabetes ou portadores do vírus HIV ou, ainda, que se submetem a tratamentos com medicamentos imunodepressores –, podendo até mesmo levar à morte. Geralmente, o contágio se dá pelo contato do fungo com a pele, mas a doença pode também ocorrer por via aérea, no caso de pacientes imunodeprimidos.

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