Como o sexismo afeta as mulheres em cargo de chefia

Ser mulher não é fácil, não. A sociedade espera que sejamos dóceis, delicadas, boazinhas. 

E, se ficamos irritadas com alguma coisa, somos logo tachadas de loucas. É tudo 8 ou 80. Como não poderia ser diferente, esse viés de gênero também existe no mundo corporativo e influencia a forma como as mulheres são vistas e o que se espera delas.
Joyce Bono, pesquisadora e professora de administração da Universidade da Flórida, investigou como isso afeta as mulheres em cargos de chefia. Em um estudo recente publicado na revistaPersonnel Psychology, ela buscou entender o chamado “descarrilamento de carreira” (“managerial derailment” em inglês), situação em que um profissional com tudo para dar certo – boa formação, boa empresa, boa posição nessa empresa – acaba demitido, rebaixado ou estagnado em sua vida profissional.
A autora e seus colaboradores descobriram que, no caso das mulheres, há um fator sexista nesse fenômeno. Eles perceberam que os supervisores podem ter diferenças de expectativas para o comportamento de gestores homens e mulheres – algo muitas vezes sutil e inconsciente, mas que ainda assim gera más consequências para elas.

Um fenômeno de sutilezas

Essa diferença no julgamento é tão sutil que geralmente não é detectável em avaliações de desempenho realizadas pela empresa, o que é ruim, pois o departamento de recursos humanos não pode fazer nada para ajudar.
Para chegar a essa conclusão, Bono e seus colegas usaram avaliações informais por meio de quatro estudos. Dois deles analisaram dados recolhidos de cerca de 50.000 gestores inscritos em programas de desenvolvimento de liderança. Outros dois foram estudos experimentais em que os supervisores examinaram as avaliações de desempenho de dois gerentes fictícios cuja única diferença era seu sexo.
Os pesquisadores descobriram que, ao avaliar os gestores que apresentaram níveis iguais de comportamentos interpessoais ineficazes, os supervisores eram mais propensos a prever o fracasso na carreira para mulheres do que para os homens. A principal desvantagem para elas, segundo o estudo, é a perda de mentoria: o chefe, descrente do potencial dessas mulheres, meio que joga a toalha e deixa de acompanha-las e orientá-las (e mesmo de lhes dar chances) da mesma forma que continuam fazendo com os homens. E aí isso acaba virando uma profecia autorrealizável.
“A mentoria é ainda mais importante para mulheres do que para homens, porque elas são normalmente menos ligadas àqueles em cargos mais altos na hierarquia corporativa – em parte porque há mais homens do que mulheres nesses níveis mais altos”, diz Bono.
A meritocracia é mito nesse cenário: mesmo tendo capacidades equivalentes, os homens recebem mais atenção, apoio e confiança de seus superiores do que as mulheres, o que favorece em muito a sua ascensão na carreira. (E vale ainda lembrar que, mesmo quando as mulheres conseguem sucesso profissional depois de enfrentar esses obstáculos maiores, ainda têm de lidar com insinuações de que ofereceram algum tipo de serviço sexual aos seus chefes, né?).

Como lidar

É tudo muito injusto, mas cabe uma ressalva: Bono enfatiza que a diferença no nível de confiança dos supervisores em homens e mulheres não é algo intencional de gente ruim. É algo inconsciente. “As pessoas esperam que as mulheres sejam mais agradáveis do que os homens, porque é isso que lhes é ensinado. Essas crenças influenciam nossos comportamentos, muitas vezes sem percebermos”, diz ela.
Isso não significa, é claro, que o assunto deve ser deixado de lado. Pelo contrário: a autora faz um apelo para que não apenas o RH das empresas, mas principalmente os CEOs e outros chefões estejam atentos e dedicados a fornecer mentoria a gerentes do sexo feminino. “Temos de continuar falando sobre isso sempre que percebermos os preconceitos de nossos colegas, e trabalhar em conjunto para reduzir os seus efeitos negativos sobre a orientação e o avanço das mulheres”.
A pesquisa foi divulgada no Futurity.org.

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