Estudante homossexual é impedido de doar sangue no Hospital

Um ator de 23 anos, homossexual assumido, foi impedido de doar sangue no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, na manhã desta quarta-feira. 


A restrição aconteceu no Hemonúcleo da unidade, mantido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

O doador tem uma relação estável com o atual parceiro há mais de cinco anos.

Após responder o questionário, o rapaz teria sido perguntado por uma enfermeira se ele gostaria de se cadastrar para doar a medula óssea — o que ajuda a salvar dezenas de vidas em todo o mundo, independente do país em que a pessoa está. Segundo Felipe, ele teria aceito, o que posteriormente foi negado por uma médica do local.Felipe Valle disse que decidiu doar sangue para ajudar um amigo que está internado na unidade com Leucemia Mieloide Aguda. "Fiz o procedimento de praxe. Respondi o questionamento e coloquei que eu era homossexual", contou.
Em um determinado momento o ator teria sido chamado para uma sala no Pedro Ernesto para confirmar o que havia dito no questionário. "A médica até foi muito educada comigo, muito humana. Mas quando ela leu que eu era homossexual, ela disse que não poderia receber o meu sangue, já que era treinada a não receber sangue de gays", disse Felipe. Ainda segundo o rapaz, a profissional teria dito que não concordava com essa orientação. "Eu argumentei com ela que eu tinha um parceiro, mas que estamos juntos há mais de cinco anos e mesmo assim ela não pôde tirar o meu sangue", relatou.
A Portaria 1.353 do Ministério da Saúde, que regula os procedimentos hemoterápicos, diz no Artigo 1º, Parágrafo 5º, que “a orientação sexual —  heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade —  não deve ser usada como critério para seleção de doadores de sangue, por não constituir risco em si própria”. Já o Artigo 34, que determina a seleção de doadores, considera candidatos “inaptos temporários por 12 meses” os “homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes”.
Felipe disse que foi fazer a doação após o apelo do amigo que perguntou as enfermeiras do Pedro Ernesto por que homossexuais não podiam doar sangue. Na ocasião as funcionárias teriam dito que pessoas que têm relacionamento com outras do mesmo sexo poderiam, sim, doar sangue, mas respeitando os critérios de segurança -- que são impostos pelo Ministério da Saúde para heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade.
"Fiquei perplexo com aquela atitude do hospital. Não estou triste com ela (a médica), pois acredito que ela foi treinada para fazer isso. Fico triste pelo hospital. Acham mais importante discriminar cidadãos do que salvar as vidas que estão se perdendo por causa dos bancos de sangue vazios", contou Valle, que estuda processar o Hospital Universitário Pedro Ernesto.
Por fim, Felipe, que tem um amigo internado na unidade médica fazendo tratamento contra a leucemia mieloide, faz um apelo para que todos doem sangue e medula óssea, independente da sexualidade.
Nesta manhã o rapaz postou a seguinte mensagem em uma rede social "queria agradecer a todos e todas por todo o carinho e apoio que recebi dentro e fora das redes sociais. É bom saber que existe tanta gente maravilhosa a nossa volta quando enfrentamos situações como essa. De qualquer forma, queria aproveitar a repercussão desse caso e lembrar que os bancos de sangue CONTINUAM VAZIOS. Temos que fazer barulho, sim. Temos que compartilhar, falar, nos indignar, mas vamos ajudar também! Eu expus minha indignação por não ter sido garantido a mim o direito de fazer o bem ao próximo e isso é um absurdo, mas não deixemos de lado o fato de que, independente de haver preconceito ou não nos protocolos das organizações de saúde, existem pessoas que estão precisando de doação com urgência! Vamos fazer com que as duas lutas caminhem juntas, ambas têm igual importância".
Questionado pelo DIA sobre o fato do rapaz ter somente um parceiro, independente da sua orientação sexual, o Hospital Pedro Ernesto afirma que não discriminou o doador e que apenas segue as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Reportagem do estagiário Rafael Nascimento 

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