Cientistas descobrem novo sintoma da toxoplasmose: fetiche sexual

Imagine ter uma gripe capaz de mudar suas preferências sexuais. 

A toxoplasmose, na maioria das vezes, não causa sintomas piores que outras doenças mais comuns. Mas, agora, uma pesquisa feita na República Tcheca mostrou que existe uma relação entre ser infectado pelo protozoário Toxoplasma gondii e desenvolver interesse em sadomasoquismo e dominação.
A toxoplasmose é famosa por ser transmitida por gatos. Os pobres animais ganharam a fama de vilões, mas só 1% dos gatos chega a transmitir a doença e só faz isso uma vez na vida toda. Mesmo assim, eles são importantes: o Toxoplasma gondii só realiza reprodução sexuada no organismo dos felinos – em coelhos, cachorros e humanos ele também se reproduz, mas sem sexo; ou seja, só produz clones de si mesmo.
Se reproduzir por clonagem não é grande coisa: torna a espécie extremamente vulnerável. Se alguma mudança no ambiente matar um, vai matar todos. Já a reprodução sexuada gera variabilidade genética, o que aumenta exponencialmente o arsenal de sobrevivência da espécie. Para a Teoria da Evolução, esse é o “objetivo final” programado em todos os seres vivos. Bom, essa pressão levou o toxoplasma a desenvolver a habilidade de manipular o comportamento dos seus hospedeiros de modo a reproduzir-se melhor. O gondii, então, precisa arrumar um gato para fazer seu ninho. Como ele não tem dinheiro para comprar um gato no pet shop, ele faz outra coisa: manipula o cérebro de ratos. 
Essa manipulação é chamada de “fenômeno da atração fatal” e foi percebida em ratos infectados que começavam a apresentar menos medo de gatos. A chance de serem devorados e o protozoário se transmitir pela carne aumentava. Faz sentido evolutivamente e os pesquisadores logo entenderam como: o toxoplasma altera a expressão de alguns genes no cérebro dos ratos. O cheiro da urina de gatos para de ativar os circuitos de medo – o que os pesquisadores observaram é que ele causa até certa atração sexual nos ratos doentes.
O próximo passo da ciência foi investigar se alguma coisa parecida acontecia com humanos. Os pesquisadores tchecos recrutaram mais de 35 mil voluntários, que responderam 700 questões sobre sua sexualidade. Entre eles, 741 já tinham sido infectados pelo Toxoplasma gondii.
Os resultados mostraram que os infectados tinham uma atração maior que a média por bondage (amarrar o parceiro ou ser amarrado), zoofilia e masoquismo. Os homens tinham interesses mais agressivos e as mulheres disseram ter feito sexo com animais acima dos números do grupo de controle.
Por outro lado, não era todo o interesse sexual não convencional que atraia os toxoplasmosos. Pornografia e sexo grupal, por exemplo, atraía menos essas pessoas do que os que nunca foram infectados. Outro fator interessante é que, ainda que demonstrem mais interesse por práticas BDSM, os infectados em geral colocavam esses interesses em prática com menos frequência que o grupo de controle – para largar um pouco o pé dos gatos, cão que ladra não morde.
A estimativa dos pesquisadores é que as pessoas que têm contato com o protozoário (que podem não saber, porque a infecção às vezes é assintomática) representem apenas 10% dos interessados por práticas sadomasoquistas e bondage.
Mesmo assim, o aspecto mais interessante desse estudo é que ele mostra o quão próximos o medo e o prazer estão no nosso cérebro – e o quão simples é dar um curto circuito entre os dois.

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