O livro que denunciou os frigoríficos

O Brasil da Operação Lava Jato repete a luta que os Estados Unidos promoveram no início do século XX contra o capitalismo de compadrio, em que os interesses de empresas particulares e do Estado se misturam, em detrimento dos cidadãos – o caso americano foi o tema do segundo post de um série que publiquei sobre o assunto.


Apenas com a criação de um arcabouço insitucional capaz de enfrentar as relações de compadrio, o país conseguiu se tornar, ao longo das décadas, a maior potência global. O movimento regulatório que disciplinou as relações entre Estado e empresas ocorreu em vários setores, em especial na indústria da carne. Um marco foi a criação, em 1906, da Food and Drug Administration (FDA), ancestral da nossa Anvisa, cuja missão é zelar pela saúde pública.

A criação da FDA no governo do presidente Teddy Roosevelt ganhou impulso decisivo com a publicação de um livro – The Jungle, de Upton Sinclair, tema de minha coluna desta semana na revista Época. Depois de visitar os abatedouros de Chicago, ele produziu um relato das condições de higiene, vida e trabalho repugnantes que vicejavam na indústria da carne. Na época, o livro se tornou um best-seller instantâneo e mobilizou a opinião pública.

O quadro pintado por Sinclair padece de seu maniqueísmo ideológico. Socialista, ele via as empresas como vilãs e era incapaz de entender como o próprio capitalismo seria capaz de corrigir as distorções provocadas pelas relações de compadrio. Mas, embora melodramático e fraco como literatura, seu livro teve inegável importância histórica.

Ao longo do século XX, a vigilância sanitária e o avanço tecnológico modernizaram o abate e a produção de carne. O último abatedouro em Chicago foi fechado nos anos 1960, sem nenhuma revolução socialista. Com o avanço do capitalismo e a globalização, uma das empresas que haviam inspirado Sinclair, a Swift, foi comprada há uma década pela brasileira JBS, ironicamente hoje um dos alvos da Operação Carne Fraca.


G1

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