Miniatura de cérebro humano cresce depois de implantada em rato

Doenças no cérebro são sempre complicadas para a medicina. Como não é possível fazer testes em humanos — afinal, quem se arriscaria a ter sua cabeça revirada? —, estudar essas patologias e propor tratamentos exigem métodos bem complexos. 

Em 2013, cientistas australianos criaram os primeiros “mini cérebros” humanos através do estímulo de células-tronco, que originaram neurônios. A partir daí, pesquisadores conseguiram formar estruturas semelhantes às dos cérebros de fetos, gerando diferentes tipos de células cerebrais e desenvolvendo, para estudo, anormalidades neurológicas — como a Síndrome de Timothy, que causa má formação física e de desenvolvimento.
Mas havia um problema: para que as pesquisas prosseguissem, esses mini cérebros precisavam sobreviver mais tempo nas culturas de laboratório. A solução encontrada foi implantá-los em um lugar onde pudessem crescer e se desenvolver: no cérebro de ratos. Sim, cientistas do Instituto Salk, nos Estados Unidos, colocaram estruturas cerebrais humanas do tamanho de uma ervilha em ratos. Os resultados desse experimento foram divulgados recentemente na revista Nature Biotechnology.
Na experiência, foram usados mini cérebros de 31 a 50 dias de vida em mais de 200 ratos. Os cientistas furaram o crânio dos ratinhos, removeram um pouco do tecido cerebral dos próprios camundongos e implantaram a “ervilha humana” — que havia sido geneticamente projetada para produzir proteínas verdes. Assim, a parte humana ficava com uma coloração esverdeada, visível através de uma espécie de tampa transparente que fechava o buraco.
O resultado foi animador: 80% dos implantes não causaram danos aos ratos. Entre uma e doze semanas, os mini cérebros criaram mais neurônios, de diferentes regiões do cérebro. Em 14 dias, quase todos haviam se incorporado ao cérebro dos ratos, dando origem a uma rica rede de vasos sanguíneos que carregava oxigênio e nutrientes, permitindo que os mini cérebros vivessem normalmente por pouco mais de 200 dias. Seu nível de desenvolvimento era semelhante ao de um bebê recém-nascido.
Um fato curioso é que, mesmo com neurônios humanos, os roedores com os implantes não eram mais inteligentes que os ratos comuns. Os pesquisadores descobriram isso fazendo um teste comportamental simples: colocaram os camundongos em uma plataforma circular com 20 buracos ao redor da borda, e os levaram até o único orifício que tinha um túnel de escape (os outros eram becos sem saída), para que eles aprendessem onde era a saída. Em seguida, deixaram que eles mesmos tentassem ir até o buraco certo. No primeiro dia, os ratos com os mini cérebros humanos cometeram menos erros, mas essa vantagem sumiu no segundo dia. Mesmo assim, o líder do estudo, Fred Gage, afirmou que ainda é cedo para se tirar conclusões, pois esses ratinhos podem, sim, demonstrar mais inteligência em outras situações: “não posso excluir, neste momento, outros impactos comportamentais”.
Outro ponto levantado pelo estudo fala sobre as questões éticas: os mini cérebros poderiam influenciar na consciência e até na identidade dos camundongos? Eles ainda são, de fato, ratos? Ou um híbrido? Os pesquisadores ainda não conseguem responder isso, mas as pesquisas continuam.

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