Filhotes de cachorros nascidos em Chernobyl podem ser adotados

Mollohan não pode começar a trabalhar sem antes fazer carinho nos cachorros que correm em sua direção sempre que chega ao campo.

“Se você ama cachorros, venha para Chernobyl — você vai amá-los”, recomenda o trabalhador temporário que há nove meses supervisiona a manutenção do espaço destruído pelo acidente nuclear de 1986.
“Eu e meus colegas sempre discutíamos como seria legal levar um dos nossos cachorros de Chernobyl para a casa”, contou Mollohan à revista Newsweek. E mal sabia ele que o desejo seria realizado.
Depois de ver uma propaganda de adoção de cachorros de Chernobyl no Facebook, Tim adotou Freddy, um filhote de pelo preto e branco com três meses de idade. O bichinho, que agora vive nos Estados Unidos, foi salvo de uma ninhada encontrada próxima ao reator nuclear 4, que deu origem à todo o desastre.
A mudança na vida de Freddy só foi possível graças ao trabalho do projeto The Clean Futures Fund, criado em 2016 por uma equipe de pesquisadores e trabalhadores de Chernobyl que foi cativada pelos cachorros que vivem na zona restrita de Chernobyl até hoje.
“Os cachorros são as vítimas involuntárias do acidente, então, qualquer coisa que nós possamos fazer para melhorar a qualidade de vida deles e garantir que eles tenham um futuro mais esperançoso, nós faremos”, afirma Lucas Hixson, cofundador da fundação, radiologista ambiental de Chernobyl e tutor da Dvaa, uma cadela encontrada em Chernobyl.
No início de julho, Hixson chegou ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, com 15 cachorrinhos — sendo que outros 15 filhotes de duas ninhadas estão à espera do mesmo futuro.
Nos Estados Unidos, os cachorros são apresentados às suas famílias adotivas, que são rigorosamente avaliadas para garantir que elas realmente possam dar uma vida digna a eles.
Dvaa, cadela adotada por Lucas Hixson (Foto: Lucas Hixson)
Mas antes de que os cachorros cheguem até os seus novos tutores, eles também passam um mais série de exames para comprovar que estão saudáveis: ficam em quarentena, têm qualquer traço de radioatividade em seus pêlos retirado, são castrados e esterilizados.
“A maioria deles não parece ser radioativa, o que é um pouco surpreendente”, afirma Tim Mousseau, biólogo da Universidade da Carolina do Sul que estuda os efeitos do desastre em animais desde os anos 2000. “Não vimos nenhum cachorro com duas cabeças”, garante o pesquisador.
Na verdade, grandes orelhas e corpos musculosos são o que há de mais notável nos animais de domésticos de Chernobyl. “As raças que mais persistem através da seleção natural são as mais fortes. Você não vê malteses ou chihuahuas correndo pela zona ", explica Hixson. Ainda assim, apesar da aparente saúde, são raros os cachorros que consigam superar os quatro anos de idade. “Se nós vemos um cachorro de cinco anos, o chamamos de vovô”, comenta.
Vida selvagem
Ao contrário de outras espécies animais, não foram encontradas grandes anormalidades genéticas na população canina de Chernobyl.
Na verdade, enquanto populações de aranhas e aves vêm diminuindo no local, a matilha canina só tem aumentado. Hoje, estima-se que cerca de mil filhotes vivam em Chernobyl. Na região, não enfrentam somente a radioatividade, mas também as baixas temperaturas e a competição por alimento com outros predadores como javalis e lobos.
A maioria dos animais que habita a área hoje são descendentes dos pets deixados em 1986 pelos moradores da cidade ucraniana de Pripyat, a mais próxima do desastre e a primeira a ser evacuada. Na época, boa parte da população tinha a intenção de voltar a casa, mas os efeitos do acidente se mostraram devastadores demais para que o retorno fosse autorizado.
Alguns dos cachorros consumiram pequenas quantidades de césio 137, mas a substância pode ser metabolizada e removida do corpo do animal em algumas semanas ou meses.
Com informações de Newsweek.

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